O ano de 2026 traz a convergência de várias pressões que estavam em formação no setor logístico e que agora se materializam em simultâneo: regulação que muda de forma, escassez de recursos que atinge limites críticos e mudanças estratégicas que passam da fase de planeamento à execução. Para gestores de operações, isto significa que decisões que podiam ser adiadas em 2025 se tornaram urgentes em 2026, não por preferência, mas por necessidade regulamentar, operacional e competitiva.
Para compreender o estado atual da intralogística, analisámos a legislação europeia em vigor, dados de mercado imobiliário e estudos recentes de consultoras e associações do setor. Do cruzamento destas fontes emergem cinco tendências que deixaram de ser tema de discussão a longo prazo e passaram a condicionar o dia a dia das operações.
Cinco tendências, uma realidade operacional
Nenhuma destas tendências é nova em si mesma. O que muda em 2026 é a sua consequência prática, isto é, deixam de ser matéria de reflexão e passam a determinar o que se mede, onde se investe e como se organiza o armazém. Por isso, apresentamo-las de seguida pela ordem em que tendem a chegar às operações: primeiro a regulação, que impõe o calendário; depois o espaço e a cadeia de abastecimento, que definem a estrutura; e, por fim, os dados e a conformidade, que exigem que tudo isto seja demonstrável.
1. CSRD depois do pacote Omnibus: a obrigação encolhe, a exigência de dados mantém-se
A Diretiva de Relato de Sustentabilidade das Empresas (Corporate Sustainability Reporting Directive, CSRD) chegou a 2026 muito diferente do que estava previsto. Com a Diretiva (UE) 2026/470, o chamado pacote Omnibus I, publicada no Jornal Oficial da União Europeia a 26 de fevereiro de 2026 e em vigor desde 18 de março, a obrigação de relato passa a aplicar-se apenas às empresas com mais de 1 000 colaboradores e mais de 450 milhões de euros de volume de negócios. Os limiares anteriores (250 colaboradores, 50 milhões de faturação) deixam de contar, as empresas da primeira vaga que caem fora do novo âmbito podem ser dispensadas de relatar sobre 2025 e 2026, e os primeiros relatórios ao abrigo da diretiva revista são esperados em 2028, sobre o exercício de 2027. Estima-se que cerca de 80% das empresas antes abrangidas fiquem de fora.
Para a maioria das empresas industriais e logísticas portuguesas isto significa que a obrigação direta desapareceu. Seria um erro concluir que a pressão desapareceu com esta, por três razões.
Primeiro, os grandes operadores logísticos, retalhistas e industriais que continuam abrangidos têm de relatar as emissões da sua cadeia de valor (o chamado Scope 3, ao lado das emissões diretas, Scope 1, e da energia adquirida, Scope 2), e vão continuar a pedir dados aos fornecedores e prestadores de serviços. A diretiva revista limita esses pedidos ao que consta do standard voluntário para PME (VSME), mas não os elimina: quem quiser ser fornecedor de uma grande empresa vai ter de responder.
Segundo, a exigência de dados de energia e emissões chega por outras vias, do ETS2 às obrigações de documentação digital que tratamos na tendência 5, e o próprio Omnibus prevê cláusulas de revisão que podem voltar a alargar o âmbito.
Terceiro, e mais prosaico, a energia é um custo. Os armazéns que operam em contínuo, com climatização, iluminação permanente e equipamentos automatizados, são pontos críticos de consumo e quem não o mede, não o consegue reduzir.
A consequência prática mantém-se: armazéns sem monitorização energética em tempo real não conseguem fornecer dados auditáveis, não identificam desperdícios e não demonstram melhorias. Em contrapartida, as operações com automação integrada, incluindo os sistemas miniload AS/RS que podem operar sem intervenção humana direta e, literalmente, “às escuras” (por isso também conhecidos como dark warehouses), beneficiam de uma vantagem mensurável: consumos reduzidos, dados automáticos e conformidade incorporada no desenho operacional. A regulação mudou de forma; a vantagem de quem já mede não.
2. Escassez de espaço impulsiona a otimização vertical
As soluções de armazenagem automática, como os armazéns verticais VLM Hänel Lean-Lift e Rotomat, destacam-se por uma razão simples: permitem aumentar a densidade sem aumentar a área. A redução de até 80% do espaço ocupado face a sistemas horizontais convencionais traduz-se em valor imediato, sobretudo quando o custo do metro quadrado e a indisponibilidade de espaço passam a condicionar as decisões de investimento.
Para decisores que procuram quantificar este impacto antes de avançar, o nosso simulador de poupança de espaço calcula, com base em médias do setor, o potencial de recuperação de área no armazém e o retorno esperado para cada configuração, numa análise preliminar que é depois complementada por uma avaliação técnica adaptada à realidade de cada operação.
Em setores com uma gestão complexa de stock, o impacto é ainda mais relevante. Na indústria do calçado e do têxtil, gerir milhares de referências com variações de tamanho, cor e modelo exige rapidez, exatidão e rastreabilidade. Neste contexto, os sistemas automatizados verticais conseguem reduzir em cerca de 60% o tempo de preparação de encomendas, porque eliminam deslocações, consolidam pontos de acesso e aumentam a consistência do processo. Para perceber porque é que a deslocação pesa tanto, vale a pena começar por o que é o picking e pelos tipos de picking mais comuns.
3. Nearshoring: da estratégia à execução em 2026
Durante décadas, o modelo dominante foi relativamente linear: produzir onde os custos são mais baixos e transportar para onde a procura é maior. Este equilíbrio entre custo e distância está a ser reavaliado à escala europeia por necessidade operacional. O nearshoring, entendido como a aproximação da produção aos mercados de destino, deixou de ser um exercício estratégico e passou a ser uma resposta direta à volatilidade e ao risco acumulado das cadeias longas.
Os números da Bain & Company, no inquérito bienal a 166 CEO e COO publicado em novembro de 2024, mostram a dimensão do movimento: 81% afirmam ter planos para aproximar as cadeias de abastecimento dos mercados principais, contra 63% em 2022; 64% já investem em nearshoring ou em split-shoring, a combinação de produção deslocalizada com atividade perto de casa; e apenas 2% dizem ter concluído os planos. A resposta às disrupções dos últimos anos não foi esperar pela normalização das rotas globais, mas reduzir a exposição, encurtar as dependências e aumentar a previsibilidade das operações, segundo um princípio simples: “na Europa para a Europa”.
Para as operações logísticas, o impacto é imediato e cumulativo: lead times mais curtos reduzem a necessidade de stock de segurança, a previsibilidade melhora o planeamento de recursos e a exposição a disrupções intercontinentais diminui. Em contrapartida, as cadeias tornam-se frequentemente mais complexas em termos de coordenação entre vários países e de gestão de múltiplos pontos de abastecimento. Menos distância não significa menos exigência; significa um tipo diferente de exigência.
Esta mudança já é visível em setores específicos. Na indústria automóvel, a relocalização de componentes para veículos elétricos para a República Checa e a Eslováquia reduz a dependência de fornecedores asiáticos. No têxtil e no calçado, várias marcas de moda europeias relocalizaram parte da produção da Ásia para Portugal, Bulgária e Macedónia do Norte, com ciclos de produção mais curtos e maior capacidade de ajustar coleções à procura real, em vez de a previsões de longo prazo.
Para gestores de armazenagem, a regionalização cria procura por instalações mais distribuídas geograficamente, com maior capacidade de resposta e flexibilidade para absorver variações de fluxo que antes eram amortecidas por stocks de segurança elevados em trânsito intercontinental. Com mais encomendas de menor dimensão a sair para mais destinos, a separação por rota, transportadora ou cliente deixa de ser tarefa manual: é o terreno do sorting automático.
4. Digital twins: a simulação antes da execução
A forma como as empresas gerem as operações logísticas está a mudar rapidamente. O modelo tradicional, com análise retrospetiva mensal e ajustes reativos, está a dar lugar a sistemas que monitorizam, simulam e respondem em tempo real.
No centro desta transformação estão os digital twins, réplicas virtuais de redes logísticas que permitem simular decisões operacionais antes da sua execução física.
Os benefícios reportados são claros. A Boston Consulting Group estima que as empresas que implementaram digital twins da cadeia de valor obtêm melhorias de 20% a 30% na precisão das previsões e reduções de 50% a 80% em atrasos e tempos de inatividade não planeados. A McKinsey & Company, na sua análise “Digital twins: the key to unlocking end-to-end supply chain growth”, aponta ganhos de até 20% no cumprimento das promessas de entrega e de cerca de 10% nos custos de mão de obra, com a ressalva de que dependem da qualidade dos dados de base. Em redes logísticas multipaís, particularmente comuns na Europa, esta capacidade de antecipação transforma-se num diferencial competitivo.
A evolução não se fica pela simulação. Os sistemas baseados em inteligência artificial estão cada vez mais aptos a redirecionar encomendas em trânsito de forma automática, reagindo a dados de tráfego, meteorologia ou constrangimentos operacionais em tempo real. Ao nível do armazém, o mesmo princípio aplica-se à simulação de fluxos, à ocupação e à cadência antes de qualquer investimento em equipamento.
5. Compliance digital: a documentação automática torna-se requisito
Para além da CSRD, 2026 traz um conjunto crescente de obrigações de compliance digital com impacto direto nas operações logísticas. A iniciativa eFTI (electronic Freight Transport Information) avança no sentido da digitalização da documentação de transporte, enquanto regulamentações como o ETS2 (Emissions Trading System) e as regras de acesso a zonas urbanas de baixas emissões acrescentam novas camadas de exigência operacional.
Apesar da diversidade dos enquadramentos, o padrão é comum: a conformidade passa a ter de ser demonstrada. Isso implica dados granulares, consistentes e auditáveis, suportados por registos automáticos, rastreáveis e verificáveis por terceiros ao longo de toda a cadeia logística.
Neste contexto, as operações que dependem de registos manuais ou de sistemas parcialmente digitalizados enfrentam um duplo risco: aumentam a probabilidade de não conformidade e veem crescer os custos administrativos associados à produção, validação e manutenção de documentação regulamentar.
Em contrapartida, as empresas que investem em soluções integradas, capazes de gerar e preservar um histórico completo de condições operacionais como parte natural do processo, transformam a conformidade num ativo operacional. Quando a documentação é produzida automaticamente, de forma contínua e auditável, o esforço de compliance deixa de ser um custo adicional e passa a integrar-se na eficiência global da operação, num contexto em que cumprir deixou de ser diferenciador e passou a ser requisito básico de funcionamento.
O que distingue a automação eficaz em 2026
A transformação logística em curso é, acima de tudo, um exercício de consistência operacional. Num contexto de pressão regulatória, restrições físicas e expectativas crescentes, a maior vantagem competitiva resulta da capacidade de alinhar investimento, processo e execução. Em 2026, o valor está menos na adoção e mais na consistência.
Nenhuma destas cinco tendências se resolve com tecnologia isolada, e várias delas continuam a alimentar os mitos da automatização de armazéns que atrasam decisões: que é só para grandes operações, que exige começar do zero, que se resume a substituir pessoas. A abordagem que funciona é a mesma em qualquer das cinco: medir o ponto de partida, perceber que função da operação está sob pressão e só depois escolher. É esse o percurso que descrevemos em como escolher um sistema de armazenagem, por perfil operacional e não por catálogo.