Num contexto em que a sustentabilidade deixou de ser um imperativo abstrato, as empresas enfrentam pressão crescente para alinhar as operações com práticas mais responsáveis e responder às expectativas de clientes, investidores e reguladores. Para as organizações cujo modelo de negócio depende de processos logísticos, conciliar eficiência operacional com práticas sustentáveis tornou-se uma prioridade estratégica.
Os armazéns automáticos são uma das respostas com impacto mais direto, porque atuam sobre três coisas que os critérios ESG medem: a energia e o espaço que a operação consome, as condições em que as pessoas trabalham e os dados que a empresa consegue apresentar. Este artigo percorre cada um dos pilares, explica o que a legislação europeia atualizada em 2026 pede de facto a quem tem um armazém e propõe seis indicadores para provar o contributo.
O que são os critérios ESG e o que a CSRD atualizada pede a um armazém
Os critérios ESG (Environmental, Social and Governance) são um conjunto de princípios usados para avaliar o impacto das operações de uma empresa no ambiente, na sociedade e na forma como é gerida:
- Ambiental (E): o impacto no ambiente, incluindo gestão de recursos, emissões de carbono e utilização de energia
- Social (S): a relação com colaboradores, comunidades e outras partes interessadas, incluindo condições de trabalho, segurança e impacto social
- Governança (G): a forma como a empresa é gerida, incluindo transparência, ética e conformidade regulamentar
Na Europa, a obrigação de relatar sobre estes critérios decorre da Diretiva de Relato de Sustentabilidade das Empresas (CSRD, Diretiva 2022/2464), cujo calendário original previa quatro etapas, das grandes empresas cotadas até às PME. Neste calendário, suspenso em 2025 e substituído em 2026 com a Diretiva (UE) 2026/470 em vigor desde 18 de março, a obrigação passa a aplicar-se apenas a empresas com mais de 1 000 colaboradores e mais de 450 milhões de euros de volume de negócios, com os primeiros relatórios em 2028, sobre o exercício de 2027.
Para a maioria das empresas industriais e logísticas, a obrigação direta desapareceu. O que não desapareceu foi a pergunta, que agora chega por outra via: as grandes empresas abrangidas têm de relatar as emissões da cadeia de valor (Scope 3) e vão pedi-las aos fornecedores. A diretiva atualizada limita esses pedidos ao standard voluntário para PME, o VSME, que cobre precisamente consumo de energia, emissões, acidentes de trabalho e práticas de governança. Quem fornece um grande cliente vai ter de responder a este questionário, e a resposta começa no armazém, porque é onde se concentra o consumo e o risco. Antes de entrar nos pilares, vale a pena ter presente o que é um armazém automático e o que o distingue de uma operação convencional.
Onde o armazém automático conta em cada pilar
Ambiental: energia, espaço e emissões
Os edifícios representam cerca de 40% do consumo de energia e 36% das emissões de CO₂ na União Europeia, segundo a Comissão Europeia, e os armazéns são uma fatia relevante desse parque. Nos armazéns não refrigerados, a iluminação é o principal uso de eletricidade e o aquecimento do espaço o principal uso de gás, de acordo com o inquérito aos edifícios comerciais da agência de energia norte-americana (EIA, CBECS 2018), o levantamento mais completo disponível sobre este tipo de edifício. Ou seja, a energia de um armazém vai sobretudo para iluminar e climatizar volume, não para mover mercadoria.
É aqui que a automação atua de três formas:
- Menos volume a iluminar e a climatizar: um armazém automático vertical ocupa até 80% menos área do que a armazenagem horizontal equivalente. Menos metros quadrados significam menos luz, menos aquecimento e, muitas vezes, evitar construir ou arrendar um edifício novo, que é a decisão com maior pegada de todas.
- Operação sem luz: os sistemas automáticos não precisam de iluminação para funcionar; por isso os armazéns totalmente automatizados são conhecidos como dark warehouses. A iluminação concentra-se nos postos de trabalho, não nos corredores.
- Energia recuperada: os transelevadores e elevadores dos sistemas automáticos usam travagem regenerativa: a energia da descida e da travagem volta à rede em vez de se dissipar em calor. Explicamos o mecanismo e os valores típicos da recuperação de energia em armazéns automáticos.
A par disto, a orientação por sistema (pick-to-light, direcionamento por WMS) elimina deslocações improdutivas de empilhadores e operadores, que são consumo sem valor acrescentado. O efeito conjunto é mensurável em kWh por movimento e em kWh por metro cúbico armazenado, os dois indicadores que fazem sentido reportar.
Social: ergonomia, segurança e retenção
As lesões musculoesqueléticas são o problema de saúde relacionado com o trabalho mais comum na União Europeia: cerca de três em cada cinco trabalhadores europeus reportam queixas deste tipo, segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA). No armazém, a causa está identificada há muito: deslocações longas, cargas manuais, alcance em altura e movimentos repetitivos ao longo do turno.
O princípio goods-to-person, em que é a mercadoria que chega ao operador e não o contrário, ataca as três causas de uma vez: elimina a deslocação, entrega o artigo à altura ergonómica do posto e reduz o esforço a recolher e confirmar. É a base do que é o picking num sistema automático, e o efeito aparece em dois indicadores que o VSME pede: acidentes de trabalho e dias perdidos. Aparece também num terceiro, que nenhum questionário pede, mas que qualquer gestor conhece: a rotação de pessoal num posto que deixou de ser fisicamente desgastante.
Há ainda um efeito de segurança menos visível: num armazém automático, a mercadoria em altura move-se dentro do equipamento, sem empilhadores a circular em corredores partilhados com pessoas, que é onde acontecem os acidentes graves em armazéns convencionais.
Governança: dados que existem sem ninguém os ter de produzir
A governança é o pilar em que o armazém automático tem a vantagem mais direta, e a menos discutida. Um sistema automático regista cada movimento: que artigo, que quantidade, quem, quando, com que consumo. A rastreabilidade não é uma funcionalidade adicional, é a forma como o sistema funciona. Tal significa que os dados que a CSRD revê, o VSME ou um cliente pedem (consumo de energia, emissões de Scope 1 e 2, precisão de inventário, incidentes) existem sem esforço adicional e são auditáveis por terceiros, porque são produzidos pela máquina e não reconstruídos a posteriori a partir de registos manuais.
É também isto que muda a natureza da conformidade: deixa de ser um exercício anual de recolha e passa a ser um subproduto contínuo da operação. É uma das razões pelas quais a colocámos entre as tendências logísticas para 2026, isto é, a regulação pode encolher ou alargar o âmbito, mas a exigência de dados demonstráveis só aumenta.
Seis indicadores ESG que um armazém automático permite reportar
Para que o contributo do armazém conte num relatório, tem de ser medido. Estes seis indicadores cobrem os três pilares, são calculáveis a partir dos dados que um sistema automático já produz e alinham-se com o que o VSME pede:
Pilar | Indicador | O que mostra |
|---|---|---|
Ambiental | kWh por movimento (ou por linha preparada) | Eficiência energética da operação, comparável antes e depois da automação |
Ambiental | m² ocupados por unidade armazenada | Densidade; traduz-se em área, e portanto em energia de climatização e iluminação, evitada |
Ambiental | Energia recuperada (kWh/ano) | Contributo da travagem regenerativa, reportável como redução de consumo |
Social | Acidentes de trabalho e dias perdidos por 100 colaboradores | Indicador VSME; sensível à eliminação de deslocações e cargas manuais |
Social | Rotação de pessoal na operação de armazém | Proxy da qualidade das condições de trabalho |
Governança | Percentagem de dados ESG do armazém gerados automaticamente | Auditabilidade; quanto mais alto, menor o risco de não conformidade |
Nenhum destes indicadores exige software adicional: são extraídos do WMS e do sistema de gestão do equipamento. O que exige é decidir medi-los antes do projeto, para que exista uma linha de base. É esse o ponto de partida que recomendamos em qualquer avaliação de soluções de armazenagem automática: primeiro o que se quer provar, depois a tecnologia.
Sustentabilidade que se demonstra com dados
A revisão da legislação europeia em 2026 não retirou relevância aos critérios ESG, mas alterou quem os exige e por que via. Para quem gere um armazém, o essencial permanece: uma operação que consome menos, protege quem nela trabalha e regista tudo o que faz. Uma operação com estas características é capaz de responder a clientes e reguladores sem sacrificar a competitividade. Com a integração de um armazém automático, essa capacidade vem incorporada no próprio sistema: os dados são registados em tempo real e podem ser apresentados sempre que alguém os solicita.